Por Fernando Piccolo
Há 14 anos... 1990. Onde você estava? Já acompanhava quadrinhos? Não tinha nem nascido? Seja qual for sua resposta às perguntas acima, seja bem-vindo à coluna MEMÓRIAS DE UM FANBOY, na qual eu pretendo lhe mostrar o que estava acontecendo num determinado ano do passado, principalmente nos quadrinhos, mas sem esquecer o mundo à nossa volta.
Claro que, por se tratar de uma coluna de MEMÓRIAS, algumas observações são bem pessoais. Portanto, se eu estiver falando mais sobre meu gosto musical ou sobre minhas desventuras escolares do que sobre a vida sentimental de Peter Parker, por favor, me interrompam.
A verdade é que 1990 prometia ser um ano fantástico para os colecionadores de gibis! O famoso “boom” do gênero em 1989 abriu as portas para uma avalanche de lançamentos que nem o mais otimista dos nerds imaginaria meses antes. Para vocês terem uma idéia, havia nas bancas oito títulos mensais da Marvel (X-Men, Superaventuras Marvel, Homem-Aranha, A Teia do Aranha, Capitão América, Hulk, A Espada Selvagem de Conan e Conan Rei), e sete, isso mesmo, SETE títulos mensais da DC (Super-Homem, Novos Titãs, Liga da Justiça e as novíssimas DC 2000, Monstro do Pântano, Batman e Os Caçadores – as duas últimas em Formato Americano, luxuosidade na época), sem falar nas diversas mini-séries, especiais, e as trimestrais Grandes Heróis Marvel e Superpowers, que ainda traziam histórias relevantes.
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Collor: "Meu povo, não me deixem só !" |
Porém, o que ninguém esperava é que a primeira eleição direta para Presidente da República, ocorrida em novembro de 1989, e que elegeu Fernando Collor de Mello, teria conseqüência direta no mercado editorial brasileiro. No dia 16 de março de 1990, um dia depois da posse, a ministra Zélia Cardoso de Mello anunciou o novo plano econômico, que limitou as contas bancárias dos brasileiros a Cr$ 50.000,00 (cinqüenta mil cruzeiros). O que isso significava? Que o povo tinha que aproveitar bem o dinheiro que tinha na mão, e que supérfluos (como nossos amados gibis) teriam cada vez menos espaço. Foi um pandemônio. Diversas pessoas foram à falência. Várias empresas quebraram. Em casa, a festa comemorando o 40º aniversário da minha mãe, que vinha sendo planejada há meses, acabou cancelada. Lembro que meu pai me chamou de lado e disse que eu teria que maneirar com meus gibis, e que eu deveria escolher duas, APENAS DUAS, revistas para continuar colecionando. Imagine você, que está lendo essa coluna, e que está acostumado a comprar a maioria das coisas que vê na banca, ter que escolher só duas revistas para comprar! Não era justo! Como era bom ter doze anos de idade...
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O craque Matthaeus leva Alemanha ao título |
A tarefa de escolher quais gibis comprar foi bastante facilitada nos dias seguintes. As revistas do mês de março simplesmente NÃO SAÍRAM !! Foram semanas e mais semanas indo na banca e não encontrando nada novo para comprar. Até a revista MAD, da qual eu era leitor assíduo na época, desapareceu. Lembrando sempre que não havia Internet na época, e os canais de comunicação entre leitor e editora eram as cartas e telefone da redação, que nem sempre era atendido. O que você pensaria? Acabou tudo, certo? Bola pra frente então.
Para mim, a falta de gibis nas bancas acabou sendo bastante positiva naquele momento da pré-adolescência. Eu passei a me interessar mais por música (fuçando na coleção de discos do meu pai), literatura e esportes. E deu tempo também da economia lá de casa se ajeitar, e aquela bobagem de escolher só duas revistas acabou esquecida.
Sim, os gibis voltaram lá por meados de abril, início de maio, com os preços devidamente reajustados em virtude do “congelamento”. Nada foi perdido, exceto a capa da revista MAD, que teve de ser refeita, pois trazia uma sátira da novela “Tieta”, que àquela altura já tinha saído do ar.
Mas estamos aqui para falar de gibis, certo? Então lá vai um apanhado do que aconteceu de mais importante nos gibis publicados em 1990 aqui no Brasil:
Guerras Secretas II – Anunciada no finalzinho de 1989, a série estreou em Grandes Heróis Marvel #27 e se alastrou por praticamente toda a linha de heróis Marvel até fevereiro de 1991. O Beyonder (aquele das primeiras Guerras Secretas), resolve assumir forma humana para aprender. Não é algo que mereça ser lembrado, acreditem, apesar de John Byrne ter nos presenteado com uma história sensacional no Quarteto Fantástico. Mas como ela só foi publicada em 1991, vocês terão que: a) aguardar até este colunista resolver falar sobre 1991, ou b) correr atrás de Superaventuras Marvel #104, de fevereiro de 1991.
X-Men (edições 15 a 26) : Os mutantes (que não tinham nem metade da popularidade de hoje) se uniram ao Homem-Aranha para enfrentar o Fanático, quebraram o maior pau com o Quarteto Futuro, se envolveram nas Guerras Asgardianas (um dos grandes momentos do ano - recomendo!) junto com a Tropa Alfa e os Novos Mutantes, presenciaram o Julgamento de Magneto e assistiram ao nascimento do filho de Ciclope, Nathan, que voltaria, já adulto, anos depois (vocês sabem quem é ele, não sabem?). Além disso, Tempestade e Ciclope duelam pela liderança da equipe. Basta dizer que o “caolho” cogitou a aposentadoria (e olha que ela estava sem poderes).
Superaventuras Marvel (edições 91 a 102) : A revista não vivia seus melhores dias. A fase do Justiceiro (sob os cuidados de Carl Potts e Whilce Portacio) agradava mais que o tradicional Demolidor e que o Thor de Walt Simonson, que já demonstrava sinais de cansaço. A edição 100, publicada em outubro, trouxe histórias de várias fases da vida do Homem-Sem-Medo.
Homem-Aranha (edições 79 a 90) : O amigão da vizinhança não andava tão amigável assim. Terminou sua parceira com a Gata Negra depois de descobrir o envolvimento da garota com Wilson Fisk, o Rei do Crime, deu uma surra num ex-arauto de Galactus, o Senhor do Fogo, e partiu em busca de vingança pelo assassinato da Capitã Jean deWolff. Outra história que merece ser lembrada é “A Aranha Suburbana”, publicada na edição 82. Nota dez!
Capitão América (edições 128 a 139) : O velho Capitão mal apareceu nas páginas de sua revista em 1990. Começou enfrentando o Apátrida e foi só. Ah! Apareceu também pela primeira vez um tal de John Walker, que depois acabaria trazendo dores de cabeça ao bandeiroso. Tivemos ainda a conclusão da série do Mestre do Kung-Fu, que virou pescador.
Hulk (edições 79 a 90) : O verdão agora era “cinzão” e havia outro Hulk, que era o Rick Jones, esse sim “verdão”. Deu pra entender? O Homem de Ferro também aparecia na revista, e trocou sua tradicional armadura dourada por uma prateada. Eu gostei na época.
Teia do Aranha (edições 4 a 15) : A revista que trazia histórias antigas do aracnídeo começou o ano em formato gigante, mas depois “rendeu-se” ao formatinho para se tornar mais acessível. Tudo dessa fase é clássico e recomendável, mas o grande destaque fica para a Morte do Capitão Stacy, publicada na edição 14.
Grandes Heróis Marvel (edições 27 a 30 ): Como eu disse lá em cima, o almanaque trimestral da Marvel trouxe Guerras Secretas II na edição de março. Em junho, tivemos duas histórias dos X-Men, a principal contra Drácula. Em setembro, Vingadores e Quarteto Fantástico enfrentaram os Skrulls e em dezembro, a edição mais esperada do ano, com a estréia do X-Factor, formado pelos X-Men originais (inclusive aquela...aquela que tinha morrido em GHM #7).
Graphic Marvel (edições 1 a 4) : A nova série da Graphic Novels da Editora Abril estreou em maio com a ótima Hulk & Coisa. Em julho, tivemos a violenta Justiceiro: Corporação de Assassinos. Em setembro foi a vez de um tal Marc Silvestri estrear no Brasil com A Vingança do Monolito Vivo, e em novembro John Byrne recriou a Sensacional Mulher-Hulk.
Superalmanaque Marvel (edição 2): Dezembro era mês do almanacão de 260 páginas e, ao contrário da salada de personagens do ano anterior, trouxe dessa vez somente Homem-Aranha.
Marvel Especial (edições 9 e 10 ): As duas edições trouxeram histórias antigas do Capitão América. São duas edições bem legais, com nomes como Jack Kirby e Jim Steranko, mas não seria melhor se elas tivessem sido publicadas no ano seguinte, que seria o cinqüentenário do Capitão?
Invasão! – A mega-saga do ano da DC estreou em novembro e perdurou até janeiro de 1991. A premissa era bem básica: Dez (ou doze, não lembro bem) raças alienígenas decidem invadir a Terra. Durante os conflitos, explode uma bomba que mexe com os poderes de vários heróis. A primeira edição trouxe de brinde um exemplar do Planeta Diário (tenho o meu até hoje!).
Super-Homem (edições 67 a 78) : John Byrne e Jerry Ordway davam seus últimos suspiros à frente do Homem de Aço. Como destaques, o encontro com a Patrulha do Destino e o surgimento da nova versão de Brainiac. Completavam a revista Capitão Átomo e Senhor Destino, além da origem de Aquaman na última edição do ano.
Liga da Justiça (edições 13 a 24) : Keith Giffen, J.M. de Matteis e Kevin Maguire continuavam mandando bem à frente do grupo. A invasão de Bialya, o seqüestro do Senhor Milagre, a estréia (no Brasil) do Lobo e a volta do verdadeiro Guy Gardner garantiram a diversão.
Novos Titãs (edições 46 a 57) : O ano começou com mais um “Quem é Donna Troy” e estabeleceu a nova identidade da moça: Tróia. O chatíssimo Danny Chase foi expulso do grupo por Asa Noturna, que temia que o garoto tivesse o mesmo destino de Jason Todd. O Gnu reapareceu e, pra finalizar com chave de ouro, tivemos a estréia do novo Robin na ótima saga Um Lugar para Morrer.
DC 2000 (edições 1 a 12) : A “revista uma década à frente” trazia em suas páginas Mulher-Maravilha (no finalzinho da fase George Pérez), Xeque-Mate, o novo Starman e, o melhor do pacote, Homem-Animal, do então desconhecido Grant Morrison. A edição #7 trouxe a inesquecível “O Evangelho do Coiote”. Com certeza, a história do ano.
Batman (edições 1 a 12) : A nova revista do morcegão – em formato americano! - estreou com a ótima saga “As Muitas Mortes de Batman”. No decorrer do ano, conhecemos mais sobre a história de Dick Grayson em “Batman Ano 3”, e os confrontos com Etrigan, a Quadra de Barro e o Pingüim.
Monstro do Pântano (edições 1 a 12): Nem é preciso falar muito né? Alan Moore. A estréia de John Constantine. O Inferno. E a partir da edição #9, a revista passou para o formato americano. Nós não éramos merecedores...
Os Caçadores (edições 1 a 8) : Arqueiro Verde, o Sombra, o Questão e o Falcão Negro eram os carros-chefe da nova publicação em formato americano. Histórias mais adultas, que mais lembravam thrillers policiais que aventuras de heróis fantasiados.
Superpowers (edições 16 a 19 ): A primeira edição do ano, em fevereiro, alardeava na capa “Super-Homem e Mulher-Maravilha, o Romance do Século”, mas nada disso acontecia. De quebra, John Byrne e Mike Mignola levaram Kal-El de volta a Krypton. A edição de maio trouxe novamente o Super-Homem, agora fechando a saga da nova Supermoça, numa história que traz repercussões até hoje. Em agosto foi a vez do Flash e, em novembro, dos Novos Titãs.
Superalmanaque DC (edição 1) : O almanaque da DC estreou em janeiro, trazendo diversas “Origens Secretas” e a edição 0 da revista do Batman. Destaque para a excelente história da origem do Flash, e para Neil Gaiman na origem do Charada.
Fora o “mainstream”, tivemos a continuidade da publicação das séries Aventura e Ficção e Graphic Novel, o lançamento da série Graphic Álbum, a série Sandman pela editora Globo, Miracleman pela editora Tannos (interrompida na 4ª edição)...
Já nos EUA...
Os leitores americanos estavam às voltas com os momentos finais da saga “Atos de Vingança”, publicada em todos os títulos da Marvel Comics. A aguardada continuação “Dias de um Futuro Presente” mostrou que certas histórias não precisam ter continuação e, na DC, as novidades ficaram por conta das novas revistas mensais do Lanterna Verde e do Gavião Negro. A primeira teria vida longa; a segunda, nem tanto.
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Mago, Rei do Crime, Mandarim, Loki, Doutor Destino, Magneto e Caveira Vermelha se unem na saga Atos de Vingança |
Enquanto isso...
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Patrick Swayze e Demi Moore em Ghost |
...no Cinema : Foi o ano de Esqueceram de Mim, de Uma Linda Mulher, de A Caçada ao Outubro Vermelho, de Tartarugas Ninjas, de Um Tira no Jardim de Infância, de Dança com Lobos, de Dick Tracy (baita enganação), e de Ghost, com sua musiquinha pegajosa.
...nos Esportes : A Copa do Mundo na Itália consagrou o futebol feio e burocrático da Alemanha, que venceu a Argentina na Final. A Seleção Brasileira, sob o comando de Sebastião Laza(rento)roni, ficou nas oitavas. No Campeonato Brasileiro, Neto, Wilson Mano e Tupãzinho levaram o Corinthians ao seu primeiro título nacional (malditos!). Em outubro, Ayrton Senna sagrou-se bicampeão da F-1.
...na TV : A Globo começou o ano cantando que “não tem pra ninguém, a Globo 90 é nota 100”, mas teve que rebolar para bater a novela “Pantanal” da Rede Manchete. Com sua novela “Rainha da Sucata” ajudou a propagar a moda da lambada (quem lembra do Kaoma?). Em outubro, estreou a MTV Brasil, muito mais “M” do que hoje, mas só para quem tinha televisor UHF.
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Marcos Winter e Cristiana Oliveira em Pantanal |
...na Música : Paul McCartney arrebanhou 185 mil “fiéis” no Maracanã, em abril. Sinnead O´Connor encheu o saco com “Nothing Compares to You”, Madonna atacou de “Vogue”, Technotronic lançou o horrendo “poperô” com sua “Pump Up the Jam” , Snap mostrou que tinha “The Power” e – O horror! O horror! – New Kids on the Block dominou as rádios com “Step by Step”.
...no Mundo : Saddam Hussein resolveu invadir o Kuwait em 1º de agosto. Foi o início de um longo conflito que levou à primeira Guerra do Golfo, em janeiro do ano seguinte.
...e assim foi o ano de 1990 para este Fanboy aqui. Espero que você, que estava lá também, tenha se identificado um pouco com as memórias escritas aqui e que tenha repassado as suas com carinho. Já quem não estava ou não lembra, ficam as sugestões de leitura e uma brevíssima retrospectiva daquela época, para mim tão próxima e ao mesmo tempo já tão distante...
Esta coluna é dedicada a uma linda garotinha loira, que em 1990 cursava o primário em Salvador- BA. Beijão pra ela!