
Nota: 7,5
Companhia das Letras/Craig Thompson
R$ 49,00 ? Edição especial
Formato 15,80 x 23.00 cm ? 592 páginas
Maio de 2009
Argumento: Craig Thompson
Arte: Craig Thompson
Neste verdadeiro romance em quadrinhos, uma obra autobiográfica, aliás, acompanhamos três fases da vida de Craig: infância, adolescência e início da fase adulta. Na infância vemos Craig conhecer o mundo junto ao inseparável irmão Phil. Em sua adolescência, fase com maior destaque, conhecemos seu amor por Raina, uma menina que ele conhece em um acampamento cristão e divide sua vida entre cuidar dos irmãos e da filha da irmã mais velha e ainda lida com a separação dos pais. Craig cresce um rapaz dividido entre a luxúria/paixão que sente por Raina e sua tradição católica, encontrando forma para se expressar em seus desenhos. No início da fase adulta, vemos o quanto tudo que passou o afetou e sua maneira de lidar com isso.
Nossa, que livrão, hein? A primeira coisa que chama a atenção nesse livro é seu tamanho. Mais de quinhentas páginas de leitura. Sorte que é uma leitura agradável, de fácil passagem, e em alguns momentos até bem instigante. Quando chega a seu ?meio? o romance de Craig e Raina realmente começa a ?pegar? (não me entendam mal, o autor é bem sensível quanto a isso) e realmente nos interessamos ao conhecer a vida da moça e o que será dos dois. O livro contém momentos de singela beleza e é particularmente feliz nos flashbacks e nas ?viagens? do protagonista.
Creio que o único tropeço da narrativa seja mesmo em seu começo, onde conhecemos a infância de Craig com seu irmão Phil. O problema é que para conhecer a tradição católica do personagem a forma é extremamente tediosa. Nós entendemos que deve ter sido chato para Craig, mas não precisa ser também para o leitor. Mais adiante, quando a narrativa perde um pouco de sua linearidade ao alternar momentos da adolescência com a infância, a coisa fica mais interessante.
Contudo há um trecho que chama mesmo a atenção, quando o protagonista e seu irmão passam por uma experiência no mínimo bizarra na infância. Ao ver isso, gostaria muito de saber o que se desenrolou, mas ao voltar ao assunto, a história não dá maiores detalhes. Uma pena que algo tão interessante e que poderia mudar a vida de qualquer um, não foi tratado com a relevância apropriada. Aliás, uma constante nessa história, assim como as coisas da vida, é que as soluções encontradas não são bem satisfatórias, se é que podem ser chamadas de ?soluções?. Por isso, se você espera uma história com trama bem definida, esqueça: Retalhos esta mais para uma história intimista do que qualquer outra coisa.
Quanto ao ?tom intimista? da história e as ?viagens? de Craig citadas anteriormente, o que pesa bastante para o sucesso ou fracasso do artifício é a arte. E sinto dizer que nesse aspecto, Craig Thompson não foi de todo feliz: sua arte tem narrativa ágil e, em momentos corriqueiros, se torna bem apropriada sua estilização (a arte do autor não é o que podemos chamar de ?realista?), porém suas imagens oníricas e nos momentos de ?singela beleza? citados anteriormente não ficam muito legais. É como se o Art Spielgman de MAUS de repente tentasse desenhar passagens psicodélicas de Monstro do Pântano. Uma árvore frondosa na arte minimalista de Spielgman seria apenas uma árvore. Pois aqui ocorre isso com o artista tentando desenhar belas passagens que são boas em sua composição, mas não combinam com o estilo.
Craig Thompson é um autor que recentemente esteve na FIQ ? Feira Internacional de Quadrinhos ? e eu gostaria muito de saber qual foi a repercussão do público brasileiro por lá, porque, pessoalmente, eu achei o seu livro um Werther de Goethe moderno em quadrinhos. Uma história que pode fascinar o leitor mais jovem, mas que quando se amadurece percebe o quanto ingênua e melosa a coisa toda pode ser. Acredito que a aceitação ou não por parte do leitor de Retalhos vai depender muito do estado de espírito deste. Eu tentei ficar em um meio termo, mas as coisas por quais passei tornou isso impossível. Algumas partes água com açúcar quase me fazem vomitar. E olha que tem uma guerra de mijo lá, que vou te contar... Mas creio que apesar de tudo, vale a pena o leitor de quadrinhos conhecer o livro.